sábado, 24 de setembro de 2016

Os 50 anos de Angicos





José Luiz Gomes


Em artigo publicado no dia de hoje, no Jornal do Commércio, Joaquim Falcão, lembra os 50 anos da experiência de Angicos(RN), onde dezenas de pessoas foram alfabetizadas com o método do pernambucano Paulo Freire, uma experiência de ensino concebida, em muito, pela vivência de Paulo com o Movimento de Cultura Popular, O MCP, que recebeu todo apoio do então prefeito do Recife, Dr. Miguel Arraes. Já lembrei outros fatos aqui sobre a vida de Paulo Freire e todos conhecem a sua coerência. Há um célebre diálogo mantido por ele com um cidadão de Jaboatão dos Guararapes, fundamental para que ele refletisse sobre a necessidade de compreender o mundo do alfabetizando, no seu processo de alfabetização. 

O diálogo, então, passou a ser um dos eixos mais importantes do pensamento do educador pernambucano. Entre as reformas de base proposta pelo Governo João Goulart, havia uma prevendo um amplo programa de alfabetização de adulto, utilizando o método Paulo Freire. Com a Ditadura Militar instaurada no país depois do golpe civil-militar de 1964, a proposta foi abortada e o país ostenta hoje uma taxa vergonhosa de analfabetismo entre a sua população adulta. Como afirma a UNESCO,vergonhosa até mesmo para os padrões latino-americano. Pelo andar da carruagem política, isso ainda está longe de ser resolvido. O governo do senhor Michel Temer acabou com o programa Brasil Alfabetizado, que era destinado a esse universo populacional.  

Há um caso envolvendo Paulo Freire que sempre tive curiosidade de esclarecer e nunca encontrei esta oportunidade. O "Livro para Alfabetização de Adultos", que se encontra no Memorial do MCP, não foi elaborado por Paulo, mas duas professoras que integravam aquele movimento. Paulo tinha sérias restrições ao trabalho, embora, a rigor, o livro se identificasse plenamente com as suas concepções teóricas. Nunca entendi muito qual a razão para Paulo rejeitar este trabalho. No artigo, Joaquim Falcão lembra que o encontrou deprimido e quis saber o motivo, ao que ele afirmou: "Joaquim, até a direita está tentando usar meu método de alfabetização. Isso é uma desvirtuação". 

O que nos levou a escrever este post, no entanto, é uma carta de Paulo aos dois amigos que o acolheram no Chile, onde esteve exilado, a quem dedicou os originais de "Pedagogia do Oprimido", uma verdadeira poesia sobre o Recife: "Faz este mês exatamente quatro anos que deixava o Recife, seus rios, suas pontes, suas ruas de nomes gostosos - Saudade, União, Sete Pecados, Rua das Creoulas, Chora Menino, Amizade, Sol, Aurora. Deixava o mar de águas mornas, as praias largas, os coqueiros. Deixava os pregões. Doce de banana e goiaba. Deixava o cheiro da terra e das gentes dos trópicos. Deixava amigos, as vozes conhecidas. Deixava o Brasil. Trazia o Brasil". No foto acima, idosos que foram alfabetizados pelo Método Paulo Freire, quando de sua experiência revolucionária em Angicos.

Como citar este texto:

Fonte: SILVA, José Luiz Gomes da. Os 50 anos de Angicos(crônica). Recife. Pesquisa Escolar do Nordeste. Disponível em: http://pesquisaescolardonordeste. blogspot.com. Acesso em: dia, mês e ano. Ex. 24 Set. 2016. 


P.S.: Do Pesquisa Escolar: Num dos nossos textos, há um relato mais detalhado sobre esse tal diálogo entre o educador Paulo Freire e um trabalhador, ocorrido numa determinada noite, em sua residência de Jaboatão dos Guararapes. o diálogo gira em torno das diferenças de classe entre ambos. Ele, um humilde trabalhador de ofícios manuais, e Paulo um homem de classe média. Alguns anos depois, Paulo relataria essa experiência como profundamente importante para as suas reflexões teóricas, sobretudo no que concerne ao processo de desenvolvimento do método de alfabetização de adultos por ele criado. Ainda teria a oportunidade de acompanhá-lo numa de suas últimas palestras no Estado, no auditório do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco e, pouco depois, no encerramento de um programa de alfabetização de adultos, utilizando o seu método, destinado aos trabalhadores da Usina Catende. Sobre os textos de Paulo acessados pelo blog ocorre um fato curioso: Sempre que as pessoas os acessam, o fazem em bloco, acessando todos os disponíveis. 90% dos acessos do blog são provenientes dos Estados Unidos e da Alemanha. Não conheço bem a realidade da penetração das ideias de Paulo Freire na Alemanha, mas sabemos que o seu prestigio nos Estados Unidos sempre esteve alto, ocupando grandes espaços em bibliotecas importantes, assim como suas obras, indicadas para leitura obrigatória de universidades bem conceituadas daquele país. Paulo Freire é o único autor brasileiro indicado entre os principais livros recomendados nas universidades americanas.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Morre Luiz, do Buraco da Gia.









José Luiz Gomes da Silva

Há alguns anos atrás, costumávamos visitar uma comunidade remanescente de quilombos, no distrito de São Lourenço, na cidade Goiana, localizada na Mata Norte do Estado. Nossa primeira estação era a própria cidade, com o apoio sempre prestimoso de Serginho da Burra e da professora Carminha, de uma faculdade local. A cidade de Goiana possui um passado histórico riquíssimo, sobretudo durante o apogeu do ciclo da cana-de-açúcar. Foi palco de vários movimentos insurgentes e, uma das primeiras indústrias têxteis do Estado foi instalada naquela cidade.


Seu sítio histórico, por sua vez, composto do casario, de igrejas centenárias, conventos, o ateliê do artesão Zé do Carmo, é de uma riqueza indescritível. Mas, um circuito histórico pela cidade ficaria incompleto se deixássemos de conhecer o famoso Restaurante Buraco da Gia, comandado por um senhor simpaticíssimo, conhecido por Luiz da Gia, na realidade, Luiz Morais, o embaixador de Goiana. Tudo era muito simples, saboroso e prazeroso com Luiz da Gia. A origem do Restaurante deve-se a uma terreno adquirido por Luiz, ,muitos anos atrás, onde havia uma cacimba, que encontrada uma jia, habitante do local.


O Restaurante foi erguido e, em homenagem à jia do cacimbão, Luiz o batizou de Buraco da Gia. A palavra "jia" é escrita com "j", mas isso pouco importa. Os manguezais de Goiana são conhecidos por possuírem, no passado, os maiores crustáceos do Brasil. Hoje, a especulação econômica das fazendas de camarão em cativeiro chegaram a comprometer a própria sobrevivência dessas espécies. Luiz da Gia criava os seus "azulões" em cativeiro, cevados com cuscuz, óleo de dendê e cascas de abacaxi. O bicho engorda de não poder andar. Luiz usava esses guaiamuns para servir os clientes do seu restaurante.


Diziam-se adestrados, mas todos sabem que, quando aqueles bichos pegam um objeto, só largam quando sino toca. Percebo que, oficialmente, tem sido complicado os anúncios de morte pela chikungunya, mas, de acordo com a família, Luiz Morais, assim como o ceramista Manuel Eudócio, teriam morrido em decorrência de complicações causadas pela doença, transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti. Veja o que Luiz da Gia dizia sobre a sua cidade: "Essa Goiana é meu sonho, essa Goiana é o meu lugar. Na minha biografia, que já escrevi, eu só saio do Buraco da Gia pra o buraco do cemitério. Eu quero meu corpo em Goiana. Não o quero lá fora não."

Como citar este texto:

Fonte: SILVA, José Luiz Gomes da. Morre Luiz, do Buraco da Gia(crônica). Pesquisa Escolar do Nordeste. Recife. Disponível em: http://pesquisaescolardonordeste.com. Acesso em: dia, mês e ano. Ex. 27 de Fev. 2016.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Manuel Eudócio





José Luiz Gomes da Silva


Morreu no último dia 13, em Caruaru, possivelmente vítima de complicações causadas pela Chikungunya, o ceramista Manuel Eudócio, com 85 anos de idade. Manuel Eudócio nasceu em 28 de Janeiro de 1931, no Alto do Moura, distrito da Princesa do Agreste. Sua mãe morreu prematuramente e ele passou a ser criado pela avó, Tereza Maria da Conceição, que era louceira. Como era muito comum às crianças nascidas ali, passou a confeccionar brinquedos de barro, com temas regionais, que eram vendidos na famosa feira da cidade. Em 1948, então com 17 anos, passa a ter um contato mais intenso com o Mestre Vitalino, que se mudara do Sítio Campos para o vilarejo do Alto do Moura. 


Sob os auspícios do Mestre Vitalino, Manuel Eudócio, digamos assim, se profissionaliza no ofício de ceramista, criando um estilo próprio, confeccionando peças que retratam o cotidiano regional, com ênfase às figuras do folclore pernambucano, como o Bumba-Meu-Boi, o Maracatu etc. Naquela época, de acordo com a pesquisadora Vergínia Barbosa, da Fundação Joaquim Nabuco, havia um clima de muita irmandade entre os artistas do Alto do Moura, donde se poderia concluir que as "semelhanças" entre os estilos dos diversos ceramistas locais não se poderia enquadrar como plágio ou coisas do gênero. 

As peças de Manuel Eudócio são feitas em argila úmida, queimadas sem uso de esmalte, em forno de lenha que ele mantém em seu quintal e, posteriormente, decoradas com tinta óleo brilhosa ou fosca, ainda de acordo com a pesquisadora. Manuel Eudócio deixa uma acervo de mais de 50 mil peças, espalhados em instituições museológicas do Rio de Janeiro, da Bahia, São Paulo e Pernambuco, praças onde suas obras alcançaram maior repercussão. No Estado, suas peças podem se encontradas no Museu do Barro, em Caruaru, e no Museu do Homem do Nordeste,localizado na Avenida 17 de Agosto, Bairro de Casa Forte, no Recife. Há, também, uma legião de colecionadores particulares, entre os quais o ex-governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos. Em 2002, através da Lei 12.196, de 02 de Maio de 2002, Manuel Eudócio foi eleito patrimônio vivo de Pernambuco. Por essa época, o Museu do Folclore do Rio de Janeiro realizou uma exposição sobre o artista, em sua sala destinada aos artistas populares.


Como citar este texto: Fonte: SILVA, José Luiz Gomes da. Manuel Eudócio. Pesquisa Escolar do Nordeste. Recife. Disponível em: http://pesquisaescolardonordeste.blogspot.com. Acesso: dia, mês e ano. Ex. 13 Fev. 2016.

domingo, 31 de janeiro de 2016

O famoso licor de pitangas do escritor Gilberto Freyre






José Luiz Gomes da Silva


Gilberto Freyre era um homem de muitas amizades. Costumava recebê-las no Solar de Apipucos e brindá-las com um tradicional licor de pitangas, preparado por ele mesmo, com frutas colhidas no próprio quintal da propriedade. Havia um ritual que ia desde a colheita da fruta até o ato de servir aos visitantes, sempre em taças de cristais. Por ali passaram grandes personalidades do mundo acadêmico e político, que vinham se "consultar" com o autor de Casa Grande & Senzala. Edson Nery da Fonseca, uma espécie de biógrafo oficial do escritor, afirma que para todos os questionamentos, ele sempre apontava sua obra-prima como sendo uma fonte de consulta para as respostas. 

Seu maior amigo, possivelmente, foi o escrito paraibano, José Lins do Rêgo, com quem deve ter degustado muito licores. O escritor teria levado para o túmulo o segredo do seu licor. Sem nenhuma dúvida, o ex-presidente Jânio Quadros foi o responsável pelos episódios mais engraçados do folclore político brasileiro. De passagem pelo Recife, logo cedinho, resolveu fazer uma visita ao sociólogo Gilberto Freyre, em sua residência do tradicional bairro de Apipucos. Quando aproximou-se do sociólogo, agachou-se, numa atitude de reverência, balbuciando rasgados elogios, o que deixaria o autor de Casa Grande & Senzala desconcertado. 

Assim que o cerimonial encerrou-se, Gilberto Freyre teria feitos alguns comentários, desaprovando a atitude esquisita de Jânio. Possivelmente, não atreveu-se a oferecer a Jânio o tradicional licor de pitanga que costumava servir a todos os visitantes do Solar de Apipucos. Concluiu que o ex-presidente, apesar do horário, já teria ingerido bebida alcoólica suficiente. O licor de Gilberto, preparado com os frutos das frondosas pitangueiras dos arredores do sítio, ficaria famoso, sempre muito elogiado pelas pessoas que o experimentaram. Depois da morte do sociólogo, que teve sua residência transformada em Casa Museu, a tradição teria sido mantida pela família. 

Há de se estranhar, portanto, as declarações do jornalista Joel Silveira, num documentário realizado pelo repórter Geneton Moraes Neto, afirmando ser este hábito o mais esquisito já presenciado por ele, além do seu desconhecimento sobre a pitanga, uma fruta saborosíssima,da caatinga nordestina, muito utilizada em sucos, sorvetes e licores. 


Como citar este texto:


SILVA, José Luiz Gomes da. O famoso licor de pitangas do escritor Gilberto Freyre. (crônica). Pesquisa Escolar do Nordeste. Disponível em http://pesquisaescolardonordeste.blogspot.com. Acesso em: dia, mês e ano. Ex. 20 set.2015

domingo, 27 de dezembro de 2015

Os melhores dias da vida de Orson Welles






José Luiz Gomes da Silva



Era o ano de 1941. Em pleno Estado-Novo, quatro jangadeiros cearenses realizaram um reide do Ceará ao Rio de Janeiro a bordo da jangada São Pedro, assim batizada em homenagem ao padroeiro dos pescadores. Guiados pela determinação, a esperança e as estrelas - sem bússola ou carta náutica, -Raimundo Correia Lima(Tatá),Manuel Pereira da Silva(Mané Preto), Jerônimo André de Souza(Mestre Jerônimo) e Manuel Olímpio Meira(Jacaré), o líder do grupo, realizaram um feito que entrou para a história da navegação, para a história da luta dos trabalhadores do mar e para a história do cinema, tornando-se uma película do cineasta americano, Orson Welles, somente finalizada oito anos após sua morte.

Integrantes da Colônia Z-1, da praia do Peixe, hoje Iracema, os jangadeiros desejavam denunciar para o país e para o Estado-Novo, corporificado na figura do ditador Getúlio Vargas, a situação de abandono em que viviam aproximadamente 35 mil pescadores do Ceará. O objetivo do reide era, portanto, indubitavelmente, político. O processo crescente de precarização da condição de vida dos trabalhadores do mar precisava ser exposto de alguma forma, e o reide cumpriria esse papel em todos os aspectos, inclusive no tocante à publicidade da repercussão do feito.

Os jangadeiros se indignavam, sobretudo, com a injusta apropriação indevida do resultado do seu trabalho. Os donos das jangadas ficavam com a metade do que eles pescavam. Moravam em toscas palhoças e não eram alcançados pelo instituto da previdência social. Os benefícios sociais, então obtidos pelos trabalhadores no Governo de Getúlio Vargas, não chegavam à classe de pescadores. No entendimento dos jangadeiros, o presidente da República, precisava tomar conhecimento desta situação. A qualquer custo.

Num “bom nordeste”, de uma manhã de 14 de setembro de 1941, os jangadeiros partiram da antiga praia do Peixe, chegando ao Rio de Janeiro dois meses depois. Foram muito bem acolhidos pela população carioca, num reconhecimento explícito pela bravura da odisseia, e, em 16 de novembro, foram recebidos no Palácio do Catete por Getúlio Vargas. Comenta-se que Getúlio teria dito para Jacaré, o líder do grupo, “Conte tudo. Não esconda nada”. Depois de ouvir as reivindicações dos pescadores, Vargas, bem ao estilo populista, teria concluído: “Voltem tranquilos. O Governo saberá ampará-los e dar-lhes justiça.”

Embora Vargas tenha cumprido as promessas formais assumidas – estendendo os direitos trabalhistas à classe de pescadores - Desde então, a situação dos trabalhadores do mar, que se dedicam à pesca artesanal no país, por inúmeros fatores, permanece enfrentado uma série de problemas, como a concorrência desleal com a pesca industrial, agravados pela escassez do pescado, como resultado da destruição dos manguezais, da pesca predatória, da não observância aos períodos de defeso das espécies.

O caso das “meninas marisqueiras” nos oferece uma situação emblemática, identificadora de que o “estado de abandono”, criticados pelos pescadores à época, ainda não foi superado. Em todas as regiões do país, mas, sobretudo, no litoral nordestino, essas meninas enfrentam um grande dilema: precisam optar entre frequentar uma escola com regularidade ou ir à pesca do crustáceo, fundamental para a sua sobrevivência. Não é preciso ser nenhum especialista em educação para concluir que, nessas circunstâncias, é grande o índice de abandono das salas de aula nas regiões litorâneas, onde esse crustáceo ajuda a movimentar a economia local, além de ser fonte de subsistência dessa população.

Na mesma década do reide dos pescadores cearenses, o sociólogo pernambucano Josué de Castro, através dos seus livros, denunciava as precárias condições de vida dos moradores dos mangues do Recife, imprimindo à questão da fome um status político, fruto das engrenagens sociais perversas. Segundo Josué, esses moradores viviam como caranguejos, atolados na lama, numa verdadeira cumplicidade com o mangue. “Ali, tudo é, foi ou será caranguejo”.

Há alguns outros fatos históricos que relacionam, de uma maneira mais orgânica, o Estado do Ceará às jangadas. Além do reide de Jacaré e seus companheiros; os romances de José de Alencar; e um fato emblemático relacionado à libertação dos escravos. Antecipando-se à assinatura da Lei Áurea, o Ceará torna-se a primeira província brasileira a abolir a escravidão. Também possui seus heróis e um desses heróis era um líder jangadeiro, Francisco José do Nascimento, conhecido como Chico da Matilde, um pardo e humilde trabalhador do mar, que se recusou a embarcar, através de sua jangada, escravos para navios negreiros que estavam ancorados no Ceará e tinha como destino o Rio de Janeiro.Levado para a Corte, Chico da Matilde, foi ovacionado pelo povo e rebatizado de Dragão do Mar. Hoje, no Ceará, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura é uma homenagem a este jangadeiro que, numa atitude de muita dignidade, contribuiu para, formalmente, agilizar o processo de libertação dos escravos.

As jangadas são embarcações de madeira flutuante, utilizadas por pescadores artesanais para a pesca em alto mar, sobretudo na costa litorânea do Nordeste brasileiro. Trata-se de um barco movido à vela, que incorpora uma série de experiências no campo da navegação, exigindo de seu comandante, destreza, habilidade, perícia e sensibilidade para acompanhar o movimento dos ventos, tábua de marés. As jangadas tradicionais são construídas sem o emprego de metais, ou seja, toda a sua estrutura é montada através de encaixes e amarradas com cordas de fibras selvagens, neste aspecto, incorporando a experiência indígena. Segundo o folclorista potiguar Luiz da Câmara Cascudo, em trabalho encomendado pela propaganda getulista, denominado Jangadeiros, a tradição de fazer jangadas com essas características vem se perdendo ao longo dos anos. Poucas colônias de pescadores da região ainda preservam tal tradição.

O reide do jangadeiro Jacaré e de seus companheiros obteve repercussão internacional. O cineasta Orson Welles tomou conhecimento da proeza através de uma edição da revista Time, que chegou em suas mãos quando ele estava a trabalho, no México. Ao ler a matéria, Orson não teve nenhuma dúvida: estava ali o segundo episódio brasileiro de um trabalho, que estava realizando para o Studio RKO, que integrava as políticas diplomáticas de boa vizinhança, do presidente Roosevelt, para o continente latino-americano.

A presença de Orson Welles no Brasil, e em particular no Ceará, as filmagens de It’s All True – título do filme que incorporava a saga dos pescadores cearenses e o carnaval carioca – a exploração política do episódio pelo do Estado Novo e a morte trágica de Jacaré durante as filmagens – num acidente sob suspeição -, culminou com a interrupção dos trabalhos, o que levou Orson Welles de volta ao Ceará, sem nenhum recurso, para retomar as filmagens, em situação extremamente complicada. Esses constrangimentos até hoje geram muitas especulações e algum folclore.

Determinado a concluir as filmagens sobre a saga dos jangadeiros, Orson Welles, como já afirmamos, voltou ao Ceará com a ideia na cabeça e uma câmara que sequer permitia a gravação de áudio. Convivendo diretamente com os jangadeiros cearenses, Welles, arriscamos a dizer, viveu os melhores dias de sua vida, a despeito das dificuldades: Filmava mesmo nessas condições adversas, um ofício que era sua grande paixão; saia para pescar com os pescadores cearenses; comeu muita cioba fresca com uma cervejinha gelada, nas caiçaras, no final de tarde; contemplava o pôr-do-sol do alto das dunas; dormia em rede; por vezes estirado na esteira de vime, como diria o poeta. Certamente namorava - provavelmente alguma cearense "avermelhada" - e ainda ouvia as conversas de pescadores, naquele bate-papo descontraído. Se, como dizem os seus biógrafos, foram os piores dias de sua vida, afirmaríamos serem os piores melhores dias.

Aqui, no litoral nordestino, um verdadeiro paraíso tropical, Welles teve a oportunidade de livrar-se do tedioso modo de vida americano, a exemplo do escritor Ernest Hemingway, que passou um período de sua vida em Cuba, pescando, escrevendo e observando o cotidiano dos trabalhadores do mar, o que resultaria no romance O Velho e o Mar. Neste período, Orson teria aproveitado o momento para realizar uma viagem ao Recife. Orson, todos sabem, tinha fama de mulherengo e fanfarrão. Hospedou-se no Grande Hotel e, numa noite de farra, teria tomado um porre “daqueles”, perdido o equilíbrio, e caído nas águas turvas do Rio Capibaribe, completamente "mamado". Uma espécie de batismo recifense do cineasta americano. It’s All True!

Há, também, uma teoria conspiratória sobre o acidente com a lancha que vitimou Jacaré, na enseada de Ipanema. Há quem assegure que o Estado Novo, que havia determinado ao DOPS que seguisse os passos dos pescadores para não permitir sua aproximação com a esquerda, poderia ter tramado a morte dos jangadeiros. Apenas Jacaré faleceu no acidente. Seu corpo nunca foi encontrado. O Estado Novo também estaria incomodado com tantos pobres, negros e favelas nas tomadas de Orson Welles no Rio de Janeiro e teria feito gestões junto ao Governo Americano no sentido de interromper as filmagens. 

Especulação ou verdade, o fato é que o Studio RKO, logo em seguida, deixou Orson à míngua, conforme já informamos. Antes do reide, os jangadeiros cearenses, por sua vez, esperaram por muito tempo, um sinal verde da Marinha Mercante liberando-os para a viagem. Incomodado com o fato, o jornalista Austregésilo de Atayde escreveu um artigo apaixonado intitulado: “Deixem vir os Jangadeiros”. Por ocasião do encontro com Getúlio Vargas, um dos seus assessores queria saber quem havia escrito o diário de bordo, relatando toda a odisseia. Ao que Jacaré teria respondido: eu mesmo escrevi o diário. Espantado, o assessor teria dito: É um novo Pero Vaz de Caminha! Jacaré, então, retrucou: Este não veio!

Embora Orson Welles seja um pouco fantasioso ao apresentar os pescadores como sujeitos praticamente vivendo longe da civilização – conforme afirma Beatriz Abreu, que escreveu uma tese de doutorado sobre o reide dos jangadeiros cearenses e sua “apropriação” política pelo Estado Novo, como peça de propaganda – o fato é que, já naquela época, a especulação imobiliária naquela área estaria empurrando os pescadores morro à cima. Beatriz Abreu enfatiza, sobretudo, os “ganhos simbólicos” do trabalhismo de Getúlio com o episódio, numa análise que merece ser lida, porque, apesar das críticas, reconhece a dignidade da ação dos jangadeiros.

O cinema nacional dedicaria outros trabalhos envolvendo a temática dos jangadeiros. Em 1926, no Recife, num movimento que ficou conhecido como “Ciclo do Recife”, marco da cinematografia brasileira, com roteiro de Luís Maranhão, Tito Severo e Jota Soares e direção de Gentil Roiz e Ary Severo foi realizado o filme mudo “Aitaré da Praia”, que conta a história de Aitaré, jangadeiro que namorava Cora e se envolve numa série de problemas depois de salvar o rico coronel Felipe e sua filha.

Sobre a presença de Orson Welles no Ceará, Firmino Holanda realizou um excelente documentário. It’s All True seria retomado mais tarde, com o filho de Jacaré, assumindo o papel principal. Depois desse episódio, outros reides foram realizados, embora sem o mesmo glamour e repercussão do reide realizado em 1941, pelos jangadeiros cearenses. Em 1974, quatro outros jangadeiros empreenderam a mesma travessia, quase sempre focadas na exposição das condições sociais dos pescadores.

Em plena ditadura militar, no seu período mais crítico, a repercussão dessa segunda viagem foi bastante suprimida. A jangada dessa travessia de 1974, no entanto, que pertenceu ao jangadeiro José de Lima Verde, e esteve sob os cuidados do Museu Histórico Nacional, tornou-se acervo permanente do Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco, exposta para visitação pública no seu pátio externo.


Crédito da foto: Firmino Holanda

Como citar este texto:

SILVA, José Luiz Gomes da. Os melhores dias da vida de Orson Welles (Crônica). Pesquisa Escolar do Nordeste. Disponível em: http://pesquisaescolardonordeste.blogspot.com. Acesso em: dia, mês e ano. Ex. 20. ago.2015

sábado, 26 de dezembro de 2015

Uma crônica para José do Nascimento, "O homem caranguejo".



José Luiz Gomes da Silva


Escrevemos muito sobre a comunidade quilombola de São Lourenço, em Goiana, Mata Norte do Estado, que costumamos visitar, com os nossos alunos e alunas, com certa frequência. Chegamos até a produzir artigos científicos sobre o assunto, que foram publicados em periódicos nacionais. Na realidade, há muitas histórias envolvendo aquele local, inclusive o fato de a comunidade, possivelmente, ser remanescente do antigo Quilombo do Catucá, comandado por Malunguinho, um dos maiores do Brasil, de acordo com alguns historiadores, perdendo apenas para o que se formou na Serra da Barriga, em Alagoas, o Quilombo dos Palmares. Malunguinho tornou-se uma entidade do culto Jurema, um ritual religioso de origem afro-indígena, hoje, praticamente circunscrito à fronteira dos Estados de Pernambuco e Paraíba, além do Estado de Alagoas.

Sempre que falamos sobre o assunto, aguçamos a curiosidade de muita gente. As visitas são extremamente concorridas. Alunos de outras turmas e até os pais dos alunos querem nos acompanhar, além de participarem, ativamente, da campanha de donativos que realizamos na cidade onde fica a faculdade. Conheci José do Nascimento, o Jipe, numa reportagem de uma revista de circulação semanal. As repórteres da revista passaram uma semana na comunidade para realizarem uma grande matéria sobre a vida de José do Nascimento, o homem caranguejo, por ocasião do relançamento da obra do sociólogo pernambucano, Josué de Castro, ainda no primeiro Governo Lula.

A matéria tinha como gancho, conforme já afirmamos, o relançamento da obra do sociólogo Josué de Castro. As repórteres escaladas produziram uma grande reportagem, acompanhando o cotidiano daquelas famílias, relatando, com riqueza de detalhes, todas as agruras por ales enfrentadas, como as dificuldades para assegurarem o sustento econômico das famílias, as precárias condições das escolas públicas da comunidade, além da quase ausência de e assistência à saúde. A despeito das oportunidades de trabalho que estão surgindo em Goiana – em razão dos grandes investimentos previstos – a cadeia de sobrevivência da comunidade continua concentrada na captura de caranguejos e mariscos, boa parte comercializados na feira de Rio Doce, em Olinda.

As repórteres fizeram questão de acompanharem a rotina de trabalho de Jipe. Desceram com ele aos manguezais, onde foram produzidos belíssimos flagrantes fotográficos. Apaixonado pelo trabalho de Josué, enxergamos aí uma grande oportunidade de aula de campo quando estivéssemos discutindo a obra do sociólogo, que escolheu a fome como o núcleo mais importante de suas pesquisas. Josué passou a estudar o assunto desde o início de sua vida acadêmica, tendo produzido excelentes pesquisas sobre o tema ainda para cumprir os ritos acadêmicos, muito antes dos clássicos Geografia da Fome e Geopolítica da Fome. 

Apesar de pessoalmente vaidoso, humildemente admitia que havia aprendido muito com os moradores dos mangues do Recife. Os bairros alagados da Veneza pernambucana, como Afogados, Pina, estão presentes em sua obra. Aprendera mais nos mangues do Recife, dizia, do que em todos os compêndios e manuais da Sorbonne, onde chegou a dar aula quando esteve no exílio. No Governo João Goulart, por intermédio do antropólogo Darci Ribeiro, quase foi nomeado ministro de Estado. A conhecida inveja pernambucana o impediu de assumir o ministério.

Seu Jipe e dona Sebastiana são pessoas bastante humildes, que sobrevivem através da captura do caranguejo uçá, hoje escasso na região, sobretudo depois da instalação de fazendas de criação de camarão em cativeiro, que destruiu um manancial incomensurável de manguezais, comprometendo a cadeia de sobrevivência da comunidade remanescente de quilombo. Como agravante, isso já comprovado cientificamente, a ração utilizada para engorda do crustáceo, que se espalha nas águas, compromete a reprodução dos caranguejos. Aquela que seria a segunda maior fazenda de criação de camarão em cativeiro da América Latina, acabou não dando muito certo. Agiu o espírito de Malunguinho, como acreditam os quilombolas, assim como ocorreu com a Base de Lançamento de Foguetes de Alcântara, no Maranhão, onde vários cientistas brasileiros foram mortos pro ocasião de um teste. A base fica localizada num antigo cemitério de negros. Como essa gente, não se brinca, conforme nos advertiram os líderes quilombolas de Alcântara, nos quilombos que conhecemos, na garupa de uma moto. 

À época, denunciamos o fato, mas a empresa já havia, como sempre, obtido todas as licenças dos órgãos que, em tese, deveriam coibir o desmatamento de um bioma protegido constitucionalmente. Nas visitas que fizemos às mais importantes comunidades quilombolas de Alcântara, no Maranhão, sentimos o mesmo drama. Um líder quilombola nos relatou que a Aeronáutica, em função da construção da famosa plataforma de lançamento de foguetes, os afastou tanto de suas fontes de sobrevivência, que, não raro, quando eles conseguiam chegar às suas comunidades, depois do trabalho no mar, o pescado já está estragado.O coco de babaçu, outra fonte de sobrevivência da comunidade, para ser colhido, somente com autorização da Base de Alcântara e em momentos específicos. Pelo que apuramos, a vida nas agrovilas tem sido insustentável. 

Sempre arrecadamos quantidade razoável de alimentos e levamos para a comunidade quilombola de São Lourenço. Somos muito bem recebidos. Os alunos (as), quase todos oriundos da classe média tradicional, ficam assustados ao saberem que os rebentos da comunidade são criados com “leite de caranguejo”, ou seja, com o caldo do cozimento do crustáceo, de onde se obtém, igualmente, um delicioso pirão.

Muito interessante essas aulas de campo. Chegamos à Faculdade local logo cedinho e, com a logística da professora Carminha e o apoio decisivo de Serginho da Burra, conhecida figura dos círculos culturais e religiosos locais, depois de conhecermos a cidade, nos dirigimos para a comunidade de São Lourenço, onde conhecemos, em profundidade, a antropologia daquele ambiente: a comunidade quilombola, as rezadeiras, o culto afro-indígena, a colônia de pescadores, as garrafadas de seu Manuel - que curam de um tudo-, a deliciosa gastronomia local e as manifestações culturais inerentes.

No final, depois de umas boas doses de cachaça e a caldeirada da Irene - já repararam que em toda zona de culinária praieira há sempre uma Irene que prepara a melhor caldeirada?- Mergulhamos nas águas mornas da praia de Ponta de Pedras. Desliguem os celulares, por favor, para não sermos incomodados com esse tal de WhatsApp. 

Como citar este texto:

SILVA, José Luiz Gomes da. Uma crônica para José do Nascimento, "o homem caranguejo" (crônica). Pesquisa Escolar do Nordeste. Disponível em: http://pesquisaescolardonordeste.blogspot.com. Acesso: dia, mês e ano. Ex. 30. set.2009.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Diário de Pernambuco e a "invenção" do Nordeste




José Luiz Gomes da Silva

Relendo o livro do professor Durval Muniz, a Invenção do Nordeste e Outras Artes, bem como a dissertação de mestrado de um dos seus orientandos, o professor Diego Fernandes​, que trata da dizibilidade da Região Nordeste como um espaço da tradição e da saudade, me deparei com algumas referências bastante interessante sobre o jornal Diário de Pernambuco, sobretudo no tocante à sua importância para a instituição da própria região Nordeste. Não fossem suficientes a série de artigos publicados pelo sociólogo Gilberto Freyre naquele jornal, ainda quando estudante nos Estados Unidos, - considerada por Durval como uma certidão de nascimento de uma região - o jornal cumpriu um papel político importante e, até mesmo geográfico, quando se toma sua esfera de circulação como um parâmetro para se definir o espaço territorial nordestino. 

Particularmente, já disse isso aqui outro dia, tenho ótimas recordações do Diário de Pernambuco. Comprava-o todas as quinta-feiras, numa banca de revistas, nas proximidades da Igreja de Santa Elizabeth, em Paulista, porque, neste dia, eram publicados os artigos de Gilberto Freyre. Todos regiamente guardados, como fazia com os do professor Pessoa de Moraes.  O jornal abriu seus arquivos para as minhas pesquisas do mestrado e, no final, nos proporcionou uma página de debate sobre o tema. O Jornal também nos facultou muitos espaços para a divulgação de nossas oficinas de roteiro para cinema e TV, sobretudo nas colunas de Alexandrino Rocha e Fernando Spencer. 

Como se observa, além de ser o jornal mais antigo em circulação da América Latina, quando se trata da região Nordeste e do Estado de Pernambuco, então, bairristicamente, sua importância é ainda mais singular. A Fundação Joaquim Nabuco, através do seu departamento de microfilmagem, mantém todas as edições do jornal microfilmadas, acessível ao público. Hoje, o jornal ainda mantém uma excelente equipe de profissionais, mas a sua linha editorial, em razão de inúmeros fatores, acusa os "reflexos" do tempo. 


Como citar este texto:

SILVA, José Luiz Gomes da. O Diário de Pernambuco e a invenção do Nordeste. Pesquisa Escolar do Nordeste. Disponível: http://pesquisaescolardonordeste.blogspot.com. Acesso em: dia, mês e ano. 22 de ago.2015